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Por Urologia

Existe um site na internet que compila algumas das previsões mais frustradas em diversas áreas. Algumas sobre tecnologia

são, ao meu ver, antológicas. Separei apenas duas para ilustrar o começo deste artigo. Em 1946 o então presidente da 20th Century Fox, empresa cinematográfica norte-americana falando a respeito da novidade que era a televisão previu:

Em seis meses a televisão some do mercado, as pessoas vão se cansar de ficarem sentadas diante de uma caixa de madeira”.

Ken Olson, fundador da Digital Equipment Corporation, então maior concorrente da IBM, nos idos de 1977 disse a seguinte frase: “Não existe qualquer razão que justifique uma pessoa ter um computador em casa”.

Júlio Verne escreveu que “o que um homem é capaz de conceber outro homem é capaz de realizar”.

No final dos anos 1980 o governo norte-americano estabeleceu um programa para desenvolvimento de um sistema capaz de realizar cirurgias por controle remoto em zonas de guerra. A indústria californiana Intuitive Surgical percebendo o potencial comercial de tal programa lançou o sistema robótico da Vinci em 1999, o qual foi aprovado para uso em cirurgias gerais laparoscópicas em 2000.

O sistema consiste de dois módulos: Um console com um visor que projeta a imagem em três dimensões, do qual o cirurgião, confortavelmente sentado dentro ou fora da sala de operação, telecomanda a cirurgia através de pequenos dispositivos conectados a seus dedos, semelhantes a dois joysticks e alguns pedais, que controlam a câmera e aciona o bisturi elétrico. O segundo módulo é o robô propriamente dito com três ou quatro braços, os quais conectados a vários instrumentos cirúrgicos e é câmera de vídeo, manipulam os instrumentais que perfuram o corpo do paciente através de portais (cânulas) laparoscópicas e realizam a cirurgia sob o comando do cirurgião.

Os principais benefícios da cirurgia robótica são: reprodução dos movimentos das mãos do cirurgião sem tremor, portanto mais precisos; visão tridimensional e ampliada, mostrando detalhes que a visão humana natural não enxerga e posição ergonomicamente confortável no assento do console de comando, que levam em última instância a uma técnica muito mais precisa, com mínimo de agressão a estruturas delicadas e máxima preservação de estruturas vitais e vizinhas.

Após duas semanas em treinamento num dos maiores centros de cirurgia robótica urológica do mundo, na Florida, onde três robôs da Vinci estão é disposição apenas para treinamento em animais, posso garantir que foi a experiência cirúrgica tecnológica mais fascinante que já experimentei.

A primeira cirurgia robótica da próstata foi realizada em Frankfurt em 2000 e a primeira da Inglaterra, em Londres em 2004. Nos Estados Unidos o sistema robótico custa cerca de US$ 1,7 milhão, além de custo de manutenção e uso de descartável que acrescenta de US$ 150 mil a US$ 300 mil/ano. A despeito desse alto custo, o número de hospitais que estão utilizando o sistema da Vinci vem aumentando significantemente. No ano passado mais de 70% das cirurgias para o câncer de próstata nos Estados Unidos foram realizadas dessa forma.

A previsão é que ao final de 2011 mais de 90% delas serão realizadas com auxílio do robô. Na Europa estes números são mais modestos, da ordem de 15%, mas permanecem crescentes. Existem várias aplicações cirúrgicas do robô da Vinci, mas é na cirurgia do câncer de próstata que sua utilidade mais se destaca. Graças às características mencionadas tem sido possível melhorar os índices de preservação da função sexual, problema mais frequente relacionado é essa cirurgia. Em alguns centros com experiência a taxa de recuperação da potência sexual com a cirurgia robótica chega a mais de 90%.

Aos que porventura achem que o robô por si só faz a grande diferença é preciso o discernimento de que a máquina não faz nada sem ser comandada pelo piloto. O cirurgião estará sempre no comando e aí a experiência e habilidade pessoal também faz diferença. A despeito das previsões cíticas de alguns cirurgiões conservadores receosos, talvez da concorrência dos cirurgiões da “geração nintendo” ou dos argumentos de que o custo ainda é muito alto que justifique o investimento, a cirurgia robótica é uma realidade e já está a disposição em nosso país. Infelizmente não há ainda em nossa região, o que é apenas uma questão de tempo. Aos céticos e conservadores relembro as previsões desastrosas sobre tecnologia de alguns “iluminados” há apenas algumas décadas. Não adianta lutar contra a tecnologia. O ideal é aceitá-la, adequá-la às nossas necessidades e é claro, de acordo com as nossas possibilidades, mas nunca desprezá-la.

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Cirurgia robótica da ficção a realidade